“VOCÊ FOI VÍTIMA DE MAUS-TRATOS?” - DOR SILENCIADA I -

 

 “VOCÊ FOI VÍTIMA DE MAUS-TRATOS?”

- DOR SILENCIADA I -

Artigo de Rosemeire Zago

 

“Não são os traumas que sofremos na infância

que nos tornam emocionalmente doentes,
mas sim a incapacidade de expressá-los”

Alice Miller

  

Um dos assuntos que mais me preocupa, pois vejo todos os dias suas conseqüências nos atendimentos em meu consultório, são os casos de maus-tratos em crianças e/ou adolescentes. Atendo apenas adultos, que chegam sem amor-próprio, baixa autoestima, insegurança, sem noção alguma de valor, o que resulta em conflitos e muitas dificuldades na vida afetiva, profissional e pessoal, ou seja, o que acontece na infância afeta toda uma vida futura.

Pretendo seguir com uma série de artigos sobre o assunto, tanto para abrir espaço para pessoas que foram vítimas, saberem que podem e devem buscar ajuda profissional, como também alertar pais/ responsáveis e professores sobre essa educação, que ainda infelizmente existe, onde se acredita que se pode educar uma criança com agressões verbais, físicas e sexuais, o que na verdade, essa “deformação” em nome da educação, faz tudo, menos educar.

O abuso infantil, ou mau-trato infantil, é o abuso psicológico, físico e/ou sexual em uma criança, por parte de seus pais e/ou responsáveis. Ocorre quando “um sujeito em condições de superioridade (idade, força, posição social ou econômica, inteligência, autoridade) comete um ato ou omissão capaz de causar dano psicológico, físico ou sexual, contrariamente à vontade da vítima, ou por consentimento obtido a partir de indução ou sedução enganosa.

A criança precisa de segurança através de emoções saudáveis para compreender os próprios sentimentos. Um ambiente familiar de violência (química, emocional, física ou sexual) é tão apavorante para a criança, que ela não consegue manter a própria identidade e para sobreviver a dor, passa a focar apenas o exterior e com o tempo ela perde a capacidade de gerar autoestima que vem do seu interior, não sabendo identificar quem ela é, sem noção do seu próprio eu.

O comportamento agressivo por parte dos pais e/ou responsáveis pode ser resultado da violência na infância e da mágoa e da dor não resolvida. Sim, o lamentável é que um adulto agressor em geral também foi vítima de maus-tratos quando criança. Segundo estudos, na França 80% dos pais que empregam a violência física como forma de educação, estão repetindo os atos de seus próprios pais. A criança impotente e ferida transforma-se no adulto agressor. Muitas formas de maus-tratos contra crianças fazem delas um agressor. Foi provado cientificamente que crianças castigadas podem ser mais obedientes a curto prazo, mas a longo prazo tornam-se mais agressivas e destrutivas. Porque na verdade elas tornam-se obedientes não por respeito ou por terem aprendido algo, mas por puro medo.

O tipo mais freqüente de maus-tratos contra a criança ou adolescente é a violência doméstica, que ocorre na maioria das vezes no convívio familiar.  Sim, é triste, mas essa é a nossa realidade. Quem os comete? No abuso sexual em geral é feito pelo pai, irmãos mais velhos ou tios.

Também considero importante ressaltar que crianças que assistem à violência são vítimas da violência, ou seja, espancar a mãe na frente da criança, equivale a espancá-la. Por isso muitos adultos, mesmo não tendo sido vítimas de agressões, mas viram sua mãe apanhar do pai, têm as mesmas seqüelas de quem foi agredido.

Há 3 tipos de agressões e é importante entender suas definições:

 

- Violência psicológica/emocional: Envolve agressões psicológicas como xingamentos ou palavras que causam danos à criança. A rejeição, depreciação, discriminação, humilhação, desrespeito e punições exageradas são formas comuns desse tipo de agressão, que não deixa marcas visíveis, mas causa danos por toda a vida. Gritar, esbravejar com a criança é violar sua noção de valor. Chamar uma criança de estúpida, boba, louca, burra, está ferindo a criança com cada palavra.

A violência emocional deixa como seqüelas: perfeccionismo, rigidez e controle.

Pais muito exigentes, não importando o que a criança faça, nunca consegue corresponder às expectativas. Nada do que diz, pensa ou sente está certo, a criança sente-se sempre errada.

 

- Violência física: Uso da força ou atos de omissão praticada pelos pais e/ou responsável, com o objetivo claro ou não, de ferir, deixando ou não marcas evidentes. São comuns tapas e murros, agressões com diversos objetos e queimaduras causadas por objetos líquidos ou quentes.

Sim, é preciso entender que omissão por parte de um dos pais, diante da agressão do outro, também é abuso e considerado crime tanto quanto a violência.

Fala de uma criança: “não sei onde minha mãe estava enquanto meu pai me batia, mas sei exatamente que ela não me defendeu, nem com palavras, nem com ações”. O que o mais sensato dos dois genitores estava fazendo quando a criança mais precisava de sua proteção?

Uma criança espancada, arrastada, esbofeteada, ameaçada, dificilmente acreditará que é especial e maravilhosa. O castigo físico corta o elo que a liga ao pai ou a mãe que a maltratam.

A emoção do passado, não resolvida, geralmente é usada contra a própria pessoa. Exemplo: quando adultos podem bater no próprio rosto com os punhos fechados, como sua mãe fazia com ele quando criança.

 

- Violência sexual: abuso do poder, no qual a criança ou adolescente é usada para gratificação sexual de um adulto, sendo induzida ou forçada a práticas sexuais com ou sem violência física. O abuso sexual pode incluir carícias, exploração sexual e linguagem obscena. A violência sexual causa um ferimento mais profundo do que qualquer outra forma de violência. Uma pessoa violentada sexualmente sente que não pode ser amada pelo que ela é e sua reação pode ser a de rejeitar completamente o sexo ou tornar-se supersexuada.

 

O assunto é triste, mas precisa ser falado, discutido, deixar de ser um assunto tabu, oculto em dores silenciadas, que muitas vezes se fazem presentes por sintomas e doenças, e que possamos cuidar dos adultos com suas crianças feridas, para que assim deixem de criar outras crianças feridas, e quem sabe assim, as crianças de hoje possam ser tratadas com todo respeito que merecem, evitando que as dores causadas deixem um rastro com seqüelas por toda uma vida.

 

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prezada rosimeire. excelente texto. o que mais tem me preocupado na questão do abuso infantil é que apesar de todo o grande esforço que tem sido feito, por exemplo, na luta do dr casé fortes, o réu, ou seja, o abusador, acaba tendo inúmeras vantagens sobre a criança abusada também nos processos judiciais. saindo assim o abuso da esfera pessoal e passando a ser um abuso ao nível social. o réu pode desqualificar a palavra da criança e de seu representante legal. a palavra da vítima não tem esse poder que dizem ter. o que me intriga é como que uma criança vai inventar uma coisa que ela nunca viveu? e, se o abusador é o pai, como é que fica? ele é absolvido por faltas de provas, uma vez que voi a criança por exemplo de 5 anos que contou o sofrimento, ele alega que a criança é vítima de alienação parental por parte da máe, e se ele ganha a guarda da criança? entende? estou muito preocupada. muito angustiada. algo precisa avançar

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