Entrevista ODÍVIA BARROS: SEGREDO SEGREDÍSSIMO, livro infantil sobre pedofilia



1 - Por que escrever um livro sobre abuso para crianças? Você acha que há pouca informação sobre isso entre elas?

 

Na verdade, o livro SEGREDO SEGREDÍSSIMO é sobre como evitar ou sair de uma situação de abuso. Eu sofri abuso sexual na infância e tinha uma grande preocupação em proteger a minha filha para que ela não passasse por isso. A única certeza que eu tinha é que precisava orientar e ensinar para ela como evitar uma situação de abuso. Mas como falar de um assunto tão difícil com uma criança de apenas 5 anos? E será que ela iria entender o que eu estava tentando ensinar? Como eu iria saber se ela havia entendido a mensagem? E que mensagem era essa? O que eu poderia dizer a minha filha tão pequena e que a ajudasse caso ela vivenciasse uma abordagem de um abusador? Todas essas dúvidas e perguntas me angustiavam e, como gosto muito de Psicologia, comecei a estudar o papel dos contos, das histórias e dos mitos. Foi assim que aprendi que as histórias são bálsamos medicinais. Elas revelam sábias instruções a respeito da vida. E as histórias têm uma força incrível! Não é preciso ter nada, ser isso ou aquilo, basta prestar atenção.

 

Num conto de fadas, por exemplo, os processos interiores são exteriorizados e se tornam mais compreensíveis pela forma como são representados pelas personagens e acontecimentos da história. É por isso que, na medicina tradicional hindu, um conto de fadas que desse forma a um problema particular era oferecido à pessoa desorientada psiquicamente para que ela meditasse sobre o conto. Esperava-se que, ao meditar sobre o conto, a pessoa fosse levada a visualizar tanto a natureza do impasse que a atormentava quanto a possibilidade de resolução. Foi aí que tive a idéia de escrever um livro que orientasse a criança a evitar ou sair de uma situação de abuso.

 

Os contos e histórias revelam sábias lições a respeito da vida. “Os Três Porquinhos”, por exemplo, ensinam à criança pequenina que não devemos ser preguiçosos e viver “na maresia”. Ao contrário: com planejamento e trabalho duro seremos vitoriosos e podemos até derrotar o terrível lobo! “Os Três Porquinhos” ensina que há vantagens em amadurecer, já que o terceiro porquinho é maior, mais velho e também mais sábio.

 

Infelizmente, as crianças têm pouquíssimo acesso a esse conhecimento atualmente. A maioria das crianças de hoje conhece os contos de fadas apenas em versões enfeitadas e simplificadas de filmes ou programas de TV, e que diminuem muito o seu sentido e roubam o seu significado mais profundo. Por isso fico triste quando entro numa livraria e vejo aquela quantidade imensa de livros infantis em que as páginas viram casas e animais e tantas outras coisas. São bonitos, coloridos, engraçados, engenhosos, mas deixam muito a desejar no conteúdo.

 

 

2 - Gostaria que você contasse mais da sua experiência, que parece ter sido o grande incentivo para o livro. Como aconteceu? Foi um membro da sua família? Por quanto tempo? Que idade você tinha? O que sentia em relação ao abuso e ao abusador? Ele te fazia sentir culpa? Como conseguiu se livrar? Pediu ajuda? A quem?

 

Sem dúvida o fato de ter vivenciado uma situação de abuso contribuiu significativamente para que eu desejasse escrever um livro que orientasse as crianças sobre como evitar ou sair desse tipo de situação.

 

Comigo aconteceu exatamente como acontece em 90% dos casos: envolvendo familiares. Quando eu li essa estatística achei que só podia estar errada. 90% dos casos acontece dentro da própria família. Saí ligando para um monte de gente que trabalha com esse assunto e, infelizmente, essa é a nossa triste realidade. E não é apenas uma realidade brasileira não. Li em algum lugar que, na Europa, esse índice fica entre 70% e 85%. Em ambos os casos, os números são muito preocupantes e devem nos fazer pensar sobre o assunto. O que cada de nós pode fazer para mudar esse quadro?

 

Infelizmente, não tive uma orientação adequada sobre o assunto. Meus pais sempre foram muito cuidadosos comigo e me ensinaram o que nós, adultos, costumamos ensinar aos nossos filhos: não falar com estranhos, por exemplo. Mas como podemos esperar que uma criança se defenda de algo que fingimos não existir? Como uma criança pequena pode imaginar que uma pessoa da família ou um amigo que freqüenta a sua casa vai fazer mal a ela? É responsabilidade dos adultos proteger as crianças. É responsabilidade dos adultos mostra que o perigo existe e que é possível se defender revelando o ocorrido. E quanto mais cedo a criança reconhece e revela o perigo, mais tempo temos de agir e impedir que ela passe por uma situação que vai marcá-la pelo resto da vida.

 

 

3 - No livro, você faz isso muito bem. Mas, de uma forma geral, como os pais devem fazer para alertar seus filhos sobre esse perigo sem assustar ou criar uma paranoia nas crianças?

 

Eu tinha muita preocupação em não assustar a minha filha com esse assunto. Queria alertar e proteger sem assustar. Também não queria que ela ficasse com medo dos adultos em geral e dos parentes e amigos em particular. Por isso acredito que a literatura adequada é uma grande arma. Quando ouvimos uma história de certa forma vivenciamos a experiência. Sofremos quando a heroína se defronta com os perigos e ficamos felizes quando ela consegue achar uma saída. Para a criança, será apenas mais uma história entre tantas que elas conhecem. Mas se algum dia elas precisarem, já terão o conhecimento necessário para evitar ou sair de uma situação de abuso. É claro que o fato da criança ter esse conhecimento não garante que ela vá usá-lo. Mas é preciso que, pelo menos, elas tenham a chance de poder usar esse conhecimento, esses passos básicos que os estudiosos do tema afirmam que a criança deve cumprir para evitar ou sair de uma situação de abuso.

 

4 - Fale mais sobre esses 4 passos básicos que você indica. Como ensinar isso às crianças?

 

Na verdade o livro SEGREDO SEGREDÍSSIMO já mostra, em forma de conto, como uma criança pode sair de uma situação de abuso, ou seja, traz os passos básicos que uma criança deve cumprir para evitar ou sair de uma situação de abuso. São estes: 1°)  reconhecer a aproximação inapropriada do adulto; 2°) resistir a induções, ou seja, dizer “não”; 3°) reagir rapidamente para deixar a situação; e 4°) contar para alguém sobre o ocorrido. Tudo isso é apresentado de uma forma lúdica, tranqüila e adequada para o mundo infantil.

 

O livro tem tido uma ótima recepção e é recomendado por educadores. Psicólogos e psicopedagogos me falam que já estão usando no dia-a-dia da clínica. Eu fico muito feliz por isso.

 

5 - Pelas pesquisas e pela sua própria experiência, por que é tão difícil pedir ajuda, contar, denunciar o abuso?

 

Acredito que, como ninguém avisa à criança que isso pode acontecer, ela não se sente à vontade para compartilhar o ocorrido com um adulto. No livro eu mostro, pela reação da mãe da personagem abusada, que a criança deve ser acolhida e acalentada ao revelar o segredo, e não repreendida. Então se a criança aprende que será compreendida e confortada, ela se sente mais à vontade para relatar qualquer tentativa de abuso. Do jeito que fazemos até agora, sem falar sobre esse tema com a criança, ela fica ainda mais temerosa por não saber qual será a nossa reação. E isso dificulta ainda mais a questão e aumenta o sofrimento da criança. O medo mais profundo da criança é o de ser considerada indesejável, é o medo da destruição dos relacionamentos que são importantes para ela e às vezes é até mesmo o medo da violência física, se ela revelar o segredo. A criança não revela o segredo por medo da perda do amor, da perda da consideração, do carinho. E o abusador as encoraja a acreditar que o segredo não deve jamais ser revelado. Além do mais, a criança é levada a acreditar que, se o revelar, todas as pessoas decentes irão brigar com elas e abandoná-las.

 

Por tudo isso é muito importante que as crianças saibam, desde cedo, que serão protegidas e não repreendidas ou condenadas.

 

6 - Outro ponto importante é que o perfil dos abusadores é mais "normal" do que tendemos a achar, né? Há como identificar um possível abusador e evitar seu contato com crianças?

 

Esse assunto é repleto de uma mistificação absurda que só favorece aos abusadores. Fala-se que o pedófilo fez isso, fez aquilo. E isso faz parecer que o pedófilo é um ser à parte, é uma categoria fechada. Falta dizer que eles geralmente têm família, amigos, trabalho, enfim, são o que comumente chamamos de uma pessoa “normal”. Esses pedófilos que têm atração por crianças unicamente eu tomo conhecimento por notícias na Internet, na TV, etc. Mas na realidade do dia-a-dia as pessoas que me falam que já passaram por isso,ou que conhecem alguém que passou, mostra um perfil muito diferente. Eles muitas vezes têm família,às vezes têm filhos, amigos, etc.

 

Eu acredito que somente através da informação e da educação das nossas crianças e da conscientização da sociedade conseguiremos evitar que mais casos aconteçam.

 

7 - O maior entrave talvez seja os pais conseguirem falar sobre o assunto (e sobre sexo em geral) com seus filhos. Quais as dicas que você dá para eles? Como aborda o tema com sua filha? Como fazia antes de escrever o livro?

 

Eu penso que quanto mais informação nós tivermos sobre esse assunto,mais preparados estaremos para combatê-lo. Não adianta virar a cara, não adianta fugir do assunto, não adianta fazer de conta que não ocorre. É doloroso, mas precisamos ter coragem para ver o que tem que ser visto, ouvir o que tem que ser ouvido e depois usarmos o bom-senso e agirmos a respeito.

 

A dica que dou para os pais é que busquem cada vez mais entender o assunto para que possam contribuir nessa luta. Conversem com os vizinhos, com os amigos, com os colegas, com o chefe, com todo mundo – longe dos ouvidos das crianças,para não assustá-las. Recomendo o filme “O Lenhador” para os interessados em entender as emoções conflitantes decorrentes de um abuso.

 

Embora eu tivesse muita urgência em alertar a minha filha, não me atrevi a abordar o assunto com ela antes do livro porque não encontrava uma maneira adequada. Criei, inclusive, o Jogo das Perguntas que se encontra no final do livro. Lá coloco 5 perguntinhas que as crianças podem responder e que vão demonstrar se ela realmente entendeu a mensagem de como evitar ou sair de uma situação de abuso.

 

8 - No livro, você usa o conhecimento prévio das crianças sobre sexo para abordar o tema. Até que ponto esse conhecimento pode ser saudável?

 

O livro está indicado para crianças de 5 anos ou mais. Uma das perguntas do Jogo das Perguntas é: “Dê exemplo de brincadeira de adulto”. As crianças de 5 anos geralmente repetem o exemplo que cito no livro, o beijo na boca. Algumas  cianças de 9 anos já respondem “Sexo” diretamente. Então, é importante que não forneçamosões para elas, e sim que trabalhemos com o repertório que cada faixa etária tem. Daí a importância desse tema ser trabalhado dentro da sala de aula.  

 

9 - Até então, a questão está focada na família. Qual o papel da escola nessa questão? Ela deve orientar as crianças?

 

É essencial que esse tema seja abordado nas escolas e que os professores sejam capacitados adequadamente. Especialistas avaliam que, a partir dos 5 anos, já é possível orientar a criança sobre a abordagem sexual imprópria por parte de adultos. Estudos em diversos países mostram que a escola tem um papel fundamental nesse contexto. Eles apontam que a escola mostra-se como situação ideal para detecção e intervenção junto aos casos de abuso sexual, justamente pelo tempo considerável em que a instituição, a criança e seus familiares interagem. É imprescindível colocar o tema abuso sexual infantil dentro das salas de aula, nos anos iniciais do Ensino Fundamental (que compreendem do 1° o 5° ano, sendo que a criança ingressa aos 6 anos de idade).  Ou fazemos isso ou os abusadores continuarão chegando primeiro.

 

10 - Políticas públicas podem ajudar? Como?

 

A capacitação dos professores para trabalhar essa temática é muito importante. A conscientização da população sobre as conseqüências a curto e longo prazos decorrentes do abuso também são importantes. A disponibilização de serviços de apoio psicológico aos adultos que se declarem vítimas de abuso é importante.

Avançamos bastante com as políticas públicas já implementadas mas ainda há muito a fazer.

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Comentário de Daniele em 26 abril 2011 às 15:49

Temos que saber realmente a forma de conversarmos sobre um tema tão delicado com nossas crianças. Mas o importante é passar confiança e interesse por tudo que elas tenham a dizer, respeitando e nao repreendendo. Parabéns pela obra Ovídia e parabéns Dr. Carlos por nos apresentar o livro.

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