A percepção confusa sobre o afeto:

“Eu nunca entendi os sentimentos da minha mãe. Ora parece que me ama e me quer acima de tudo, demonstra ciúmes e posse, ora me afasta, me isola, maldiz como se sua inimiga eu fosse... fico confusa. Não sei se luto pelo seu amor ou se desisto... a solidão é difícil demais, então fico e aceito esse jogo que dilacera ainda mais minha alma...”.

 A percepção confusa no que tange às afeições é uma consequência comum em mulheres adultas vítimas de abuso sexual perpetrado por pais biológicos ou padrastos, as quais, segundo as estatísticas, são os que mais cometem o crime de abuso sexual intrafamiliar, seguidos de tios, irmãos, avós, entre outros adultos conhecidos da vítima. A mulher que na infância sofreu esse tipo de agressão do pai ou do padrasto, além de ter que conviver com tal dor, precisa lidar com os sentimentos ambivalentes da mãe que, por vezes a enxerga como a filha amada e, outras, como a mulher que veio lhe roubar o marido.



Etapas do abuso: início, revelação e retratação

Iniciado na infância ou na adolescência, o abuso sexual pode durar anos sem ser descoberto, uma vez que sua prática não se restringe aos contatos sexuais, podendo o voyeurismo e o exibicionismo também ser entendidos como modalidades de abuso, evitando, dessa forma, registros corporais na vítima. Tomemos como exemplo pais que não evitam que a criança ou o adolescente presenciem, de algum modo os momentos em que mantêm relações sexuais, criando situações em que o filho vê ou ouve coisas que não quer, não pode entender, ou que o envergonhe.

Quando a situação abusiva é revelada pela própria vítima, normalmente acontece em época tardia, de maneira conflitada e pouco convincente, o que favorece que outras pessoas creditem ao relato uma fantasia criada pela vítima, quando na verdade o julgamento em questão pode representar uma forma de negar a responsabilidade pela negligência sobre a criança ou o adolescente e a culpa gerada em razão disso.

Assim como a rejeição quanto ao ocorrido reforçar a ilusão de uma sacralidade familiar, também favorece a manutenção da disfunção no grupo em questão, pois, sendo desmentida, contraditada em seu relato, a vítima normalmente “volta atrás” na denúncia e submete-se a uma nova situação de abuso, de caráter psicológico mais evidenciado, sendo levado a assumir de forma integral a culpa pelo ocorrido. Nesse momento, o abusador pode ficar "isento" de sua responsabilidade em relação ao ato e se mantém no convívio familiar como se nada houvesse acontecido, provocando, inclusive, uma inversão de papéis – a vítima se torna algoz e o algoz, vítima.

Algumas consequências:

Não raro, pessoas que foram aliciadas na infância podem tornar-se criminosos da mesma natureza na vida adulta. Comumente, por intermédio do abuso, homens buscam se afirmar no que se refere a sua sexualidade. Em mulheres, o mais comum é desenvolverem dificuldades para o estabelecimento de limites nas relações, repetindo um padrão de vitimização em situações diversas, com chefes, amigos, parentes, filhos, maridos e até subordinados. Podem ainda cometer abusos de outra natureza, como o físico, o psicológico e a negligência, sendo mais rara a reprodução do abuso sexual. A ansiedade patológica, especialmente o transtorno de ansiedade pós-traumático, a depressão e o suicído como evolução de ambas,também são comuns nos casos de abuso sexual onde as vítimas podem ser tanto homens como mulheres.

Tais resultados são favorecidos pela repressão dos sentimentos de desamparo, aprisionamento, entre outros desencadeados em experiência dessa natureza, uma vez que a criança ou o adolescentes é forçado a manter o segredo sobre o que acontece, pois, além de ameaçado pelo abusador, corre o risco de perder o amor de outras pessoas, especialmente o da mãe e não obter a credibilidade pelo relato.


Convivendo com a dor:

Mas, ao contrário do que a grande maioria pensa, os danos causados pelo abuso sexual, assim como os de outras experiências negativas na infância e na adolescência, podem ser tratados. Indivíduos que buscam a psicoterapia possuem grandes possibilidades de se tornar pessoas melhores e de evitar a reprodução dessa psicopatologia em relação a seus descendentes. Afinal, lembrando Jean Paul Sartre, o ilustre filósofo existencialista francês diz: “O importante não é aquilo que fizeram de você, mas o que você  faz  do que os outros fizeram de você.”
* Disque 100 para denunciar! É gratuito e o número é o mesmo para qualquer lugar do Brasil. Faça sua parte! NÃO SILENCIE, NÃO SEJA CUMPLICE DESSE CRIME!

Suporte bibliográfico:
• Abuso sexual em família: a violência do incesto à luz da Psicanálise – Carla Júlia Segre Faiman;
• Crianças vítimas de abuso sexual – Marceline Gabel (org);
• Abuso sexual contra crianças e adolescentes – Luísa Fernanda Habigzang, Renato Maiato Caminha;
• Sobrevivência emocional – Rosa Cukier.

Psicóloga: Ana Virgínia de Almeida Queiroz / CRP: 01-7250

Sugestão de filme: Preciosa

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